JORNAL DE PLÁSTICOS - FEVEREIRO DE 2000


O DESENVOLVIMENTO A PARTIR DE DENTRO

Sydney A. Latini

É preciso retomar o desenvolvimento, usando o mercado interno como alavanca. Trata-se de superar de uma vez por todas o debate absurdo sobre o desenvolvimento voltado para fora e o desenvolvimento voltado para dentro. Os dois, quando definidos dessa maneira, são muito ruins. A boa fórmula é o desenvolvimento a partir de dentro. Desta maneira, o mercado interno dinâmico passa a ser um elemento de competitividade sistêmica do país. Ele se torna menos vulnerável aos impactos da conjuntura internacional.
A dinamização da economia rural, neste caso, parece subestimada no debate brasileiro, porque um campo mais próspero gera uma demanda para produtos e tecnologia da cidade. O agricultor que ganha mais vai comprar mais camisas, sapatos, telefones, computadores, carros e instrumentos de trabalho.
Hoje, para cada 100 empregos gerados em áreas rurais, 45 são diretamente agrícolas, 10 em agroindústria e 45 induzidos pelo aumento da renda dos agricultores nas cidades - e no próprio campo - e que são tipicamente urbanos.
Tem sido pouco enfatizado o extraordinário efeito multiplicador de desenvolvimento rural sobre o resto da economia.
Esta foi, em síntese, a mensagem deixada por Ignacy Sachs - professor da Escola de Altos e Estudos em Ciências Sociais de Paris e co-diretor de seu Centro de Pesquisa sobre o Brasil - quando de sua peregrinação pelo Brasil, em outubro, num trabalho de consultoria com o Sebrae.
Saches está convencido de que a única coisa que precisamos é de um certo afrouxamento do crédito e de que este afrouxamento não gera pressão inflacionária se tivermos uma oferta adequada de gêneros alimentícios e de produtos de primeira necessidade como contra partida dos salários que serão pagos aos que trabalham.
Também não compromete o problema do ajuste externo, porque em todas as atividades rurais não há componente significativo de importação.
Os recursos necessários para essa alavancagem da economia rural existem em grande abundância mas a prática mostra que as condições impostas para a utilização desses recursos são incompatíveis com a situação dos que deveriam procurá-los. Trata-se de crédito para pessoas que não têm garantias sólidas para obtê-lo como os bancos exigem. Temos que encontrar fórmulas institucionais que permitam a essas fontes acessar este crédito e este é um dos maiores desafios que o país tem que enfrentar.
A esse respeito é oportuno ressaltar a experiência do Banco do Brasil. Nos últimos 10 anos, o Banco do Brasil destinou US$ 91 bilhões em financiamentos rurais e agroindustrias. Em 1998 foi responsável por 80% dos empréstimos ao setor primário da economia. Vale a pena observar que o pequeno produto rural, aquele que em muitos casos vai tocando na lavoura de subsistência é quem paga seus débitos pontualmente, para que o crédito seja mantido a ele possa seguir vivendo da agricultura. Aí, o índice de inadimplência mal chega a 1%. Justifica-se, assim, por todos os motivos, uma considerável ampliação dos recursos do Banco do Brasil ao atendimento desta faixa de produtor rural.
Para atender ao grande produtor, podem ser utilizados mecanismos de financiamento que os tornarão menos dependentes dos empréstimos do Tesouro Nacional ou de bancos oficiais.
Pelo mecanismo de opções o produtor estará garantindo que na data prevista para concretização do negócio, poderá vender sua safra pelo preço acertado, se isso ainda o interessar, e através de Cédulas de Produto Rural (CPR) ajusta o preço futuro de acordo com a cotação do dia e assina um contrato de venda antecipada com um comprador, no Brasil ou no exterior, para entrega numa determinada data e recebe antecipadamente o valor acertado, financiando assim sua produção.
Esses novos mecanismos estão sendo lançados pelo Banco do Brasil e devem fazer parte de uma nova estratégia para ampliar a possibilidade de financiamento do setor agrícola no mercado financeiro e pode reforçar políticas públicas ativas e direcionadas para setores e nichos onde se pode gerar empregos.

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